Dia cinco de setembro foi comemorado aqui no Brasil o Dia do Irmão. Eu não tenho irmãos, mas se tivesse gostaria que minha relação com ele / ela fosse igual a da de duas famosas irmãs do cinema mudo: Lillian e Dorothy Gish. Juntas ou separadas, elas eram imbatíveis em talento. Quando atuando num mesmo filme, Lillian e Dorothy eram normalmente irmãs também nas telas e a relação de amor e cumplicidade transparecia. Um dos exemplos mais contundentes é o último filme que as irmãs fizeram com o megalomaníaco D. W. Griffith, “Órfãs da Tempestade”, um drama eletrizante sobre a Revolução Francesa.
Uma família nobre pode cair em desgraça quando uma moça da família tem uma filha com um homem simples. A menina, de nome Louise, é abandonada na escada da Catedral de Notre Dame. O mesmo gesto faz o pobre Girard, que se arrepende e, além de voltar para casa com a filha, leva também o outro bebê abandonado. Henriette Girard (Lillian Gish) e Louise (Dorothy Gish) crescem como irmãs de sangue que se adoram e se apoiam quando os pais morrem. Logo depois, outra tragédia: Louise fica cega e Henriette decide levá-la para Paris, onde tem esperança de que algum médico seja capaz de curá-la. As irmãs não poderiam ter escolhido época pior para a viagem: estamos em 1789, às vésperas da Revolução Francesa.
Um detestável aristocrata, o Marquês de Praille (Morgan Wallace), um homem que exagerava ao aplicar talco no rosto, se encanta por Henriette e a sequestra, levando-a até uma de suas famosas orgias, onde um bom aristocrata, Chevalier de Vaudrey (Joseph Schildkraut) se apaixona pela moça. Louise é deixada sozinha nas ruas e é resgatada por Pierre Frochard (Frank Puglia), a “ovelha branca”, o único bom elemento de uma família de mendigos. A senhora Frochard (Lucille La Verne) não demora a ameaçar Louise e a usa para pedir esmolas em Paris. E aí estoura a Revolução.
Mais uma vez Griffith extrapola em sua megalomania, e não apenas por criar um filme de quase duas horas e meia. Ele insere muitos personagens e cria cenários suntuosos, quase à altura dos de “Intolerância” (1916), que exigem um figurino igualmente luxuoso e centenas de extras (um deles foi inclusive decapitado nas filmagens). Mas não foi nada fácil levar a história às telas. Baseando-se em uma peça francesa, Griffith escreveu o roteiro, relutando em copiar as duas versões anteriormente filmadas, em 1911 e 1915 (esta última com Theda Bara como Henriette, infelizmente, está perdida). Quem tinha os direitos sobre a peça era a atriz Kate Claxton, que se popularizou ao interpretar a protagonista no teatro, e não queria autorizar Griffith a adaptar a peça para o cinema. Depois de convencê-la, parece que Kate liberou de vez e vendeu os direitos também para o cinema alemão, que pretendia lançar sua versão no mercado junto à de Griffith. Coube ao diretor, então, comprar os direitos de distribuição da película alemã e adiar sua estreia. Ufa!
Assim como em “Intolerância”, Griffith tenta passar uma mensagem, que fica clara logo no começo: não devemos acreditar em líderes fanáticos, como os bolcheviques. Essa mensagem agradou muito ao governo, tanto é que pouco depois do lançamento o elenco foi convidado para uma visita à Casa Branca. E, tirando essa explicação do início, há relativamente poucos intertítulos, de modo que cabe ao espectador gerar a maioria dos diálogos e súplicas em sua mente.
É impossível ver esse filme sem se lembrar do livro de Charles Dickens adaptado para o cinema em 1935, “A Queda da Bastilha / A Tale of Two Cities”. De fato, Griffith pesquisou alguns detalhes nesta obra e em livros de história para dar mais veracidade ao roteiro. Ele inclusive adicionou as figuras históricas de Danton (Monte Blue, muito alto) e Robespierre (Sidney Herbert, parecido com Basil Rathbone). Muitas cenas deste e do filme de 1935 são incrivelmente parecidas e aprendemos duas coisas dessas obras: além de muitos inocentes terem sido condenados à guilhotina, as mulheres más da época sempre usavam bigode. A vilã senhora Frochard é interpretada por Lucille La Verne, ícone do teatro que emprestaria sua voz à madrasta de “A Branca de Neve e os Sete Anões / Snow White and the Seven Dwarves” (1937).
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| "Órfãs da Tempestade", 1921 |
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| "A Queda da Bastilha", 1935 |
Embora Lillian seja a mais conhecida das irmãs (e minha atriz de cinema mudo favorita), Dorothy também sabe brilhar. Nascida Dorothy Elizabeth Gish cinco anos depois da irmã, ela cortou o cordão que a amarrava a Lillian quando Griffith começou a exagerar em seus filmes. Ambas estrearam sob as câmeras do diretor, seguindo o conselho da amiga Mary Pickford, em 1912 e, quando Lillian rodava “O Nascimento de uma Nação” (1915), Dorothy aproveitou para fazer curta-metragens, mas sua história sempre esteve ligada a Griffith. Era ele o supervisor desses filmes curtos e foi em um filme de D. W. que ela realmente se destacou: “Hearts of the World” (1918), uma propaganda de guerra da qual Griffith mais tarde se arrependeu.
Lillian sempre teve muito amor pela irmã que a acompanhou desde o início da carreira. D. W. Griffith, diz a lenda, acreditou que elas eram gêmeas na primeira película que fizeram, embora eu ache isso difícil de acreditar (Dorothy, originalmente loira, passou a usar uma peruca escura e Lillian sempre teve olhos maiores). Entretanto, com o passar do tempo ele dava menos atenção para a irmã mais nova, deixando-a chateada. Lillian tentava contornar essa frustração elogiando e mimando a irmã, e inclusive sugeriu que Griffith adaptasse “Órfãs da Tempestade” para as telas com a intenção de fazer de Dorothy a protagonista Henriette. Embora os papéis tenham sido trocados no final, a atuação de Dorothy é excelente e, sim, há quem diga que em alguns momentos ela está melhor que Lillian.
Assisti a uma versão do YouTube sem trilha sonora e, para não ficar no completo silêncio, coloquei como trilha músicas de Ennio Morricone, o que gerou situações interessantes em momentos chave (é incrível como o tema de "Era uma vez no Oeste" combina com a Revolução Francesa). A obra-prima das irmãs Gish pode ser encontrada no YouTube ou no Internet Archive.



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